Estudo aponta as aberrações cromossômicas mais frequentes em brasileiros com LLC 

Por: Fleury Medicina e Saúde​​​​​ 

 
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A leucemia linfocítica crônica (LLC), tipo mais comum de leucemia no hemisfério ocidental, caracteriza-se pela proliferação clonal de células B, maduras, CD5+. Trata-se de uma doença heterogênea, com resposta clínica variável entre os pacientes, tanto que, enquanto alguns necessitam iniciar o tratamento já na ocasião do diagnóstico, outros podem prescindir do uso de medicamentos por décadas. Nesse contexto, a detecção de anormalidades cromossômicas é importante para a determinação de prognóstico.

Segundo dados da literatura, as alterações mais frequentemente identificadas por hibridação in situ por fluorescência (FISH) são del(13q) (40-60%), del(11q) (10-20%), trissomia 12 (10-20%), del(17p) (3-8%) e del(6q) (6%). Com o objetivo de analisar tais aberrações na população brasileira, a equipe de Hematologia e Citogenética do Fleury avaliou sua base de dados entre 2005 e 2014 e selecionou 344 casos diagnosticados com LLC, de acordo com a classificação da Organização Mundial de Saúde, cujas amostras foram obtidas ao diagnóstico ou antes da instituição do tratamento.

A média de idade dos pacientes do estudo foi de 61 anos (31-99), com uma proporção de 1,8 homem para cada mulher. Dos 344 indivíduos participantes, 75,9% exibiam, pelo menos, um tipo de aberração cromossômica (veja tabela).

Entre os 92 pacientes com a del(13q), 83 (90,2%) apresentavam deleções monoalélicas, três (3,3%), bialélicas, e seis (6,5%), tanto mono como bialélicas – para efeito de análise estatística, os pesquisadores consideraram estes últimos como portadores de deleções bialélicas. A relação entre masculino e feminino foi de 1,3:1 entre indivíduos com alterações monoalélicas e de 0,8:1 nos pacientes com deleções bialélicas. Já a média de idade chegou a 59 anos (34-98) no primeiro grupo e a 74 anos (34-89) no segundo.

Havia, nos pacientes mais velhos, deleções bialélicas do 13q provavelmente decorrentes da supressão do segundo alelo, o que ocorre em fase mais tardia da doença. Vale ainda observar que, nesse grupo, a deleção bialélica não se mostrou tão frequente quanto descrito em publicações prévias. A literatura também é controversa em relação ao significado desse achado quanto ao prognóstico, pois, se alguns estudos apontam um prognóstico ruim para a del(13q) bialélica, outros não confirmam esse dado.

Em contrapartida, a del(13q) associada à trissomia 12 foi detectada em poucos casos, o que pode ser explicado pelo alto número da deleção de 13q na presença de outras aberrações, como 6q, 18q21, t(11;14), t(14;19) e t(14;18). Ademais, cinco pacientes exibiam a del(13q) simultaneamente às trissomias 12 e 18. Nesse cenário, se o cromossomo 18 não tivesse sido analisado, a porcentagem de pacientes com del(13q)/trissomia 12 seria a mesma relatada por outros autores, em torno de 2%.

A del(11q), por sua vez, é uma alteração mais comum em pacientes jovens e, no estudo, apareceu de forma simultânea à del(17p) em duas mulheres (0,6%), de 39 e 47 anos. Tal achado pode ser decorrente do fato de essas duas aberrações aparecerem de forma mais frequente em indivíduos mais novos.

Por fim, no que se refere ao tamanho do clone para a del(13q), sugere-se que os casos com maior porcentagem de células anormais têm menor sobrevida, maior contagem de linfócitos, maior infiltração de medula óssea e esplenomegalia mais evidente.

“Nossos resultados não diferem de forma significativa da literatura, exceto pela menor média de idade em relação a estudos europeus e norte-americanos, o que se justifica pela menor expectativa de vida da população brasileira”, assinala a assessora médica do Fleury em Hematologia e Citogenética, Maria de Lourdes Chauffaille. “Contudo, vale ponderar que, na maioria dos trabalhos já publicados, somente as aberrações prognósticas mais importantes, como del(13q), del(17p), del(11q) e trissomia 12, são investigadas, enquanto nosso estudo avaliou regiões adicionais, o que traz mais informações e, por sua vez, explica alguns resultados, como uma menor porcentagem detectada de del(13q)/trissomia 12”, completa.

Microscopia eletrônica de células de um paciente com LLC. 

Adaptado de: Rev Bras Hematol Hemoter. 2017; 39(4): 388-390.

Microscopia eletrônica de células de um paciente com LLC.
Microscopia eletrônica de células de um paciente com LLC.

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